Monday, 13 June 2005




É outono, desprende-te de mim.

Solta-me os cabelos, potros indomáveis
sem nenhuma melancolia,
sem encontros marcados,
sem cartas a responder.

Deixa-me o braço direito,
o mais ardente dos meus braços,
o mais azul,
o mais feito para voar.

Devolve-me o rosto de um verão
sem a febre de tantos lábios,
sem nenhum rumor de lágrimas
nas pálpebras acesas.

Deixa-me só, vegetal e só,
correndo como rio de folhas
para a noite onde a mais bela aventura
se escreve exactamente sem nenhuma letra.


Eugénio de Andrade...


...o mundo hoje está mais pobre... desapareceu um poeta. Com ele aprendi que há maneiras de usar as palavras, uns conseguem criar magia, outros não. Eugénio de Andrade era um mágico, pois cada poema era uma lágrima, uma declaração de amor, um sonho ou um desabafo. Mas sem nunca perder a beleza e a serenidade das manhãs, ou a imensidão do mar. As "palavras estão gastas", mas ele possuía o dom de lhes dar nova vida, sempre.

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