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Thursday, 16 June 2011

Poemagem #11

movo-me
1 2 3 passos para a direita
descruzo os braços
conto os intervalos de tempo

descompassos no tempo
descompassos no teu tempo
descompassos no desespero do tempo

abro a única janela para o mundo que em ti existe
num acto selvático de te saber
permites-me?
ou sorris pela fresta da loucura?

precisava de um 3ª braço
para me segurar os meus outros dois
enquanto eu te descanso
e não esburaco o lacre que te remendei em mim

o que é mais terrível...?
saber-te longe
ou
perceber-te perto?





Texto: SombrArredia | Fotografia: Adriana O.
*Sobre o projecto Poemagem

Thursday, 2 June 2011

Poemagem #10




Transformação

a casa;
as palavras dentro da casa.A
casa dentro de ti.
De ti , toda essa voz doce tão depressa feita melopeia, feita murmúrio, ou
num beijo de esquecer, o teu vulto, dobrado
sobre ti mesma,
o xaile escuro envolvendo-te o regaço, o
escuro, a cor da memória, da casa,
do tecto,
da incerteza que passa inócua; o
apressar do aconchego, da companhia habitada;
o bafo
o andar arrastado
o trago.
Tudo cinematográficamente perfeito...
e no entanto arde.


Texto: SombrArredia | Fotografia: Adriana O.
*Sobre o projecto Poemagem

Thursday, 19 May 2011

Poemagem #9

Subitamente lembrou-se
que o quarto não era branco
e não tinha rosas…




Texto: SombrArredia | Fotografia: Adriana O.
*Sobre o projecto Poemagem

Thursday, 5 May 2011

Poemagem #8



quero falar do teu corpo
como quem fala da prosa
espaço branco
intermédio
caiado de silêncios



Texto: SombrArredia | Fotografia: Adriana O.
*Sobre o projecto Poemagem

Thursday, 21 April 2011

Poemagem #7

Aproximava-se um dia sem rumo e restou-lhe esperar.




Texto: SombrArredia | Fotografia: Adriana O.

*Sobre o projecto Poemagem

Thursday, 7 April 2011

Poemagem #6

Enegreci-te nos olhos

Enegreci-te nas mãos
Com o pó do sentir
Espesso
Dolente
Incapaz de se mover sem mais um sopro.

Há sempre
Um olhar humedecido que encontro para o teu negrume.




Texto: SombrArredia | Fotografia: Adriana O.

*Sobre o projecto Poemagem

Thursday, 24 March 2011

Poemagem #5




Algures soou uma onda; não em
uníssono com as outras, não em simetria com nada;
nada nela era.

Apenas o era no arquejar imperfeito da manhã.



Texto: SombrArredia | Fotografia: Adriana O.

*Sobre o projecto Poemagem

Monday, 21 March 2011

Um dia feliz!


Devias saber que é sempre tarde que se nasce, que é sempre cedo que se morre. E devias saber também que a nenhuma árvore é lícito escolher o ramo onde as aves fazem ninho e as flores procriam.

(Albano Martins, in Frágeis são as palavras)


Feliz dia da Poesia, da Árvore e da Primavera!

Thursday, 24 February 2011

Poemagem #4



As cores das fachadas que estalam e não permanecem.
A realidade interposta de hábitos;
há buracos no céu; é só o que quero deixar aqui hoje.



Texto: SombrArredia | Fotografia: Adriana O.

*Sobre o projecto Poemagem

Thursday, 10 February 2011

Poemagem #3

Acordei com vontade de me fechar para o mundo.
Sê a minha obsessão
e desenho-te o sempre.




Texto: SombrArredia | Fotografia: Adriana O.

*Sobre o projecto Poemagem

Thursday, 27 January 2011

Poemagem #2



Agarrou-se à manhã seguinte, com um sorriso suspenso.



Texto: SombrArredia | Fotografia: Adriana O.

*Sobre o projecto Poemagem

Thursday, 13 January 2011

Poemagem #(2.)1

Foi há quase um ano que começámos o projecto Poemagem, eu e a SombrArredia. Nasceu de uma vontade de brincar a meias com as palavras e a imagem, e correu tão bem que decidimos continuar, mas aumentando um pouco o desafio. Desta vez, voltamos com a versão 2, feita de palavras e imagens nossas, recuperadas de gavetas e cds antigos, ou criadas de propósito para o efeito. A ideia é dar voz à fotografia (minha), e imagem aos poemas (dela), assim, à vez, de 15 em 15 dias, num exercício de criatividade. Espero que gostem!

:::::


As palavras não têm querer.
Demasiado quentes explodem na boca de quem ama.
e TUDO acontece como antigamente



Texto: SombrArredia | Fotografia: Adriana O.

Thursday, 30 December 2010

Poemagem #47


Photo by Nuno G.


Quando começa uma pessoa a nascer? Quando começa a morrer? Será que começa a morrer antes de ter nascido por inteiro? Sentado numa cadeira de praia interrogo o pé que desenha na areia quente uma âncora. E depois a âncora desenha um coração. E depois o coração desenha uma janela. Levanta-se da cadeira, aproxima-se da janela, debruça-se, dá um impulso ao corpo magoado e cai. Só o vento o acompanha, Está ainda a nascer? Ou começou agora? […]


(Eduardo Prado Coelho e Ana Calhau, in Dia por ama, Texto editora)



*Sobre o projecto Poemagem*

Thursday, 23 December 2010

Poemagem #46

Palavras

Senta-te ainda à mesa - escreves
palavras tão compactas, tão opacas
como a luz que te cega. Cada dia
promete o infinito em meia dúzia
de palavras - o amor,
a vida, o tempo, a morte, a esperança,
o coração. Repete-as,
repete-as muitas vezes em voz alta
e escuta a sua música
até não quererem dizer nada.


(Fernando Pinto do Amaral, in Poemas Escolhidos( 1990-2007), Publicações Dom Quixote, 2009)



Photo by Ieva Jansone


*Sobre o projecto Poemagem*

Thursday, 16 December 2010

Poemagem #45


Photo by Jacinta Moore


De neve nada sei, de sol também,
de milhares de sossegos acordados,
da subida do teu rosto atrás dos ombros,
da mão ardente, da vista da sacada
nada sei.
Ponho palavras como coisas feitas:
só entre elas, enquanto jogam, leves,
seu rodado sem cor nem qualidades,
minha ciência existe, e já não minha,
ou só tão minha como tua e delas,
ar entre os dedos, sumo de verdades.

(Pedro Tamen, O Aparelho Circulatório, 1978)



*Sobre o projecto Poemagem*

Thursday, 9 December 2010

Poemagem #44

Verão de Água

Verão de água
ao sul de uma praia

convexo na boca

um pássaro de viagem

semelhante
ambíguo
de se reter nos
braços

animal de areia
a pernoitar nas algas


(Maria Teresa Horta, Verão Coincidente, Guimarães Editores, 1962)



Photo by Heidi Romano


*Sobre o projecto Poemagem*

Thursday, 2 December 2010

Poemagem #43


Photo by Loraine @ grijs


-Que significa “cativar”?
-Tu não deves ser daqui, disse a raposa. Que procuras?
-Procuro homens, disse o principezinho. Que significa “cativar”?
-Os homens, disse a raposa, têm espingardas e caçam. É uma maçada! Também criam galinhas. É o único interesse que lhes acho. Andas à procura de galinhas?
- Não, disse o principezinho. Ando à procura de amigos. Que significa cativar?
- É uma coisa de que toda a gente se esqueceu, disse a raposa. Significa “criar laços”..

(Antoine de Saint-Exupéry, in O Principezinho, Editorial Aster, Lisboa)



*Sobre o projecto Poemagem*

Thursday, 25 November 2010

Poemagem #42

[…]
Agora é a tua ausência que se ri de mim no silêncio da minha casa. Quando tu vivias, podias sempre voltar. Existias em suspenso sobre os dias em que nos afastávamos. Respiravas algures na mesma cidade. Encontrar-nos-íamos no acaso duma tarde, num recanto de jardim, diante de uma natureza morta da tua Josefa de Óbidos. Às vezes saía à tua procura nos bares que dantes frequentávamos. E voltava para casa com a certeza d que o céu estudaria a hora e a luz precisas desse encontro.
[…]

(Inês Pedrosa, in Fazes-me falta, Pub. Dom Quixote,202)



Photo by Adriana O.


*Sobre o projecto Poemagem*

Thursday, 18 November 2010

Poemagem #41


Photo by Ffgoatee


Gozo os campos sem reparar neles

Gozo os campos sem reparar para eles.
Perguntas-me por que os gozo.
Porque os gozo, respondo.
Gozar uma flor é estar ao pé dela inconscientemente
E ter uma noção do seu perfume nas nossas idéias mais apagadas.
Quando reparo, não gozo: vejo.
Fecho os olhos, e o meu corpo, que está entre a erva,
Pertence inteiramente ao exterior de quem fecha os olhos
À dureza fresca da terra cheirosa e irregular;
E alguma cousa dos ruídos indistintos das cousas a existir,
E só uma sombra encarnada de luz me carrega levemente nas órbitas,
E só um resto de vida ouve.

(Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos", in Obra Poética de Fernando Pessoa; Poesia -III Ed. Europa América)


*Sobre o projecto Poemagem*

Thursday, 11 November 2010

Poemagem #40

Antes do começo

Antes do nenúfar da origem

Antes da hélice dos tufões ciclópicos

Antes do escancarar da sombra a vazar-se

Antes do golpe de gongue no tímpano do dia

Antes da dança dos fosfenos no nada

Antes

Do inimaginável repouso da energia

No não figuradp o rarescente o denso

Na involução do Ser que não existe

No germe cujo nada é o princípio

Na semente cujo fruto é o nada

Ela dorme

Antes do começo

Antes do nenúfar da origem

Antes da hélice dos tufões ciclópicos

Antes do escancarar da sombra a vazar-se

Antes do golpe de gongue no tímpano do dia

Antes da dança dos fosfenos no nada

Antes

Do inimaginável repouso da energia

No não figurado o rarescente o denso

Na involução do Ser que não existe

No germe cujo nada é o princípio

Na semente cujo fruto é o nada

Ela dorme


(Ernesto Sampaio, in Fernanda, Fenda edições Lda ,2000)



Photo by Nuno G.


*Sobre o projecto Poemagem*