Monday, 17 May 2004


Herdade da Poupa, Nikon F50, Agfa 400 ISO

Amanhã vou para longe, vou deixar o cheiro acolhedor da minha casa, o seu sossego... vou para o campo, como qualquer biólogo que se preze... e estar em contacto directo com o meu objecto de estudo. É a rotina à qual não posso fugir, embora de cada vez que vá não consiga evitar de sentir a vontade de ficar no meu canto... Mas a natureza, apesar de por vezes assustadora pela sua força e grandeza, pode ser compensadora, põe-nos em contacto connosco mesmos e dá-nos espaço para sentir mais fortemente o nosso papel por aqui. Não me deu resposta ainda, mas de cada vez que regresso a alegria de estar de volta esquece os lamentos do dia-a-dia!

Friday, 14 May 2004


"Crow Eagle" - índios Piegan - de Edward S. Curtis

O Lakota era um verdadeiro amante da natureza. Amava a terra e todas as coisas boas da terra, e esse afecto crescia com a idade. Os idosos chegavam literalmente a amar o solo; sentavam-se ou repousavam na terra com o sentimento de se aproximarem das forças maternais. Era bom para a pele o contacto com a terra, e as pessoas idosas gostavam de tirar os mocassins e andar de pés descalços sobre a terra sagrada. Os seus tipis erguiam-se nesta terra de que eram feitos os seus altares. Os pássaros que voavam nos ares vinham repousar-se nela e a terra era o lugar permanente de todas as coisas que viviam e cresciam. O solo suavizava, fortificava, lavava e curava. É por isso que o velho índio se afinca ao solo, em vez de se separar das forças da vida. Para ele, sentar-se ou deitar-se assim consiste em poder pensar mais profundamente e em sentir mais vivamente; contempla assim mais claramente os mistérios da vida e sente-se mais próximo das forças vivas que o envolvem… Esta relação que ele mantém com todas as criaturas da terra, do céu e da água constituía um princípio real e activo. O velho índio tinha um sentimento de fraternidade para com o mundo dos pássaros e dos animais, e estes retribuíam-no com a confiança. Era tão estreita a familiaridade entre certos lakotas e os seus amigos de penas ou de peles que, tal como se fossem irmãos, falavam a mesma linguagem.
O velho lakota era sábio. Sabia que o coração do homem afastado da natureza se torna duro; que a falta de respeito para com o que cresce e vive depressa conduz também à falta de respeito para com os humanos. Por isso mantinha ele os jovens sob a mansa influência da natureza.

(Chief Luther Standing Bear, in A Fala do Índio de Teri McLuhan)

Thursday, 13 May 2004

escrevo-te
não que saiba escrever ou dizer o que quero
Resolvi passear e na tarde acontece
encontrar o lenço no bolso e dos beirais ao olhar a rua
a rua chegar à porta escrevo-te
porque me apetece escrever e ainda esta manhã te vi e
Compro o jornal e
da esplanada escrevo a canivete os nossos nomes no ar do rio
escrevo-te e as palavras duram mais
e são ditas de todas as vezes que lidas e
não que saiba escrever ou dizer o que quero Entro
e o autocarro está cheio
e ainda esta manhã te vi e
Passeei a tarde inteira e se me acho nos beirais dos bolsos
e se acontece vir das a casa que leias o que te digo
de todas as vezes
Então pedi um café demorado e não li o jornal
e dos beirais das o nome às coisas e
os pombos juntam-se aos velhos no jardim e o autocarro está cheio
E acontece vir dar a casa escrevo-te
e antes do jantar entrego-te esta carta em mãos
e não é porque saiba escrever ou dizer o que quero é
só porque sim

(João do Nascimento)

Monday, 10 May 2004

Eu dizia:
“nenhuma brisa é triste”,
e procurava água, lábios,
um corpo
onde a solidão fosse impossível...
(Eugénio de Andrade)


Nikon F50, Kodak Ektachrome 100 ISO, 2004

Sinto que ainda estou a descobrir a vida como ela é, por vezes dura, nem sempre um canto quente e aconchegante... e quando acontece ela abalar o meu ser, tenho de reagir muito mais violentamente do que gostaria... e é tão difícil!

Thursday, 6 May 2004


Nikon F50; Kodak gold 200 ISO


O voo da guitarra

O mundo
às vezes
é somente
uma ferida sobre
outra ferida – a luminosa
coincidência
duma asa desprendida
e o voo
duma guitarra.

(Albano Martins)

Sunday, 2 May 2004


Leiria, 2004
Nikon F50, Ilford 400 ISO

Friday, 30 April 2004

entre as manhãs que sofremos, entre as esperas de tudo o que não nos quis,
havia uma esperança pequena.
não sabíamos que a chuva é um olhar desesperado. não sabíamos que o frio.
entre as manhãs que sofremos, uma lágrima.
e uma lágrima é morrer tão completamente.

éramos as crianças e a água. éramos as árvores.
as folhas das árvores, uma aragem, os pássaros a voar na nossa respiração.
éramos as manhãs e nós a sofrê-las, éramos uma pequena esperança.
não sabíamos que não se pode acreditar, nem sofrer, nem ser criança e água.
havia uma esperança pequena.

procurámos tudo o que não nos quis. esperámos.
entre as manhãs que sofremos. entre a chuva, o frio, as árvores, os pássaros.

éramos a terra triste. éramos uma aragem.
não sabíamos que uma lágrima. não sabíamos que a imensidão
da morte é maior que uma esperança pequena.

(josé luís peixoto)