Thursday, 10 June 2004


Cores do tempo, Lisboa 2001 (Nikon F50, Kodak 200 ISO)


Esquadros

Eu ando pelo mundo prestando atenção
Em cores que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo, cores
Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção no que meu irmão ouve
E como uma segunda pele, um calo, uma casca
Uma cápsula protectora
Eu quero chegar antes
P’ra sinalizar o estar de cada coisa
Filtrar seus graus
Eu ando pelo mundo divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome dos meninos que têm fome
Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
(Quem é ela? Quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle
Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm para quê?
As crianças correm para onde
Transito entre dois lados, de um lado
Eu gosto de opostos
Expondo meu modo, me mostro
Eu canto para quem?
Eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?
Minha alegria meu cansaço?
Meu amor, cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado

(Adriana Calcanhotto)

Saturday, 5 June 2004


(Comforting sounds, capa para colectânea de música, 2003)


Time works like acid
you see time fly...

...we are not constant
we are an arrow in flight
the sum of angles of change...

(James Douglas Morrison)

Monday, 31 May 2004

Estou de volta, e já de partida outra vez... Não tenho conseguido reunir os minutinhos diários para deambular com o espírito, para pesquisar ou ordenar as ideias, mas há tempos em que temos de nos abstrair dessa vontade de sermos muito nós próprios e fixar toda a atenção em qualquer projecto mais trabalhoso. Tem sido assim com este mestrado, que enfrenta agora a época mais crítica, mas espero ter tempo depois para gozar da sensação de ter tudo acabado e bem feito, e aí sim dar largas à imaginação! Volto logo...

Friday, 21 May 2004


O meu canto, Coimbra (2000), Nikon F50 Kodak 200 ISO

Voltei :)


Meditação

Ontem o tempo
estava cheio de estrelas.
Pus as mãos dentro dele.
Depois, sentei-me a olhar as ondas,
uma a uma,
como se contasse as lágrimas de mar

que há no fundo do coração.

(Carlos Pires)

Monday, 17 May 2004


Herdade da Poupa, Nikon F50, Agfa 400 ISO

Amanhã vou para longe, vou deixar o cheiro acolhedor da minha casa, o seu sossego... vou para o campo, como qualquer biólogo que se preze... e estar em contacto directo com o meu objecto de estudo. É a rotina à qual não posso fugir, embora de cada vez que vá não consiga evitar de sentir a vontade de ficar no meu canto... Mas a natureza, apesar de por vezes assustadora pela sua força e grandeza, pode ser compensadora, põe-nos em contacto connosco mesmos e dá-nos espaço para sentir mais fortemente o nosso papel por aqui. Não me deu resposta ainda, mas de cada vez que regresso a alegria de estar de volta esquece os lamentos do dia-a-dia!

Friday, 14 May 2004


"Crow Eagle" - índios Piegan - de Edward S. Curtis

O Lakota era um verdadeiro amante da natureza. Amava a terra e todas as coisas boas da terra, e esse afecto crescia com a idade. Os idosos chegavam literalmente a amar o solo; sentavam-se ou repousavam na terra com o sentimento de se aproximarem das forças maternais. Era bom para a pele o contacto com a terra, e as pessoas idosas gostavam de tirar os mocassins e andar de pés descalços sobre a terra sagrada. Os seus tipis erguiam-se nesta terra de que eram feitos os seus altares. Os pássaros que voavam nos ares vinham repousar-se nela e a terra era o lugar permanente de todas as coisas que viviam e cresciam. O solo suavizava, fortificava, lavava e curava. É por isso que o velho índio se afinca ao solo, em vez de se separar das forças da vida. Para ele, sentar-se ou deitar-se assim consiste em poder pensar mais profundamente e em sentir mais vivamente; contempla assim mais claramente os mistérios da vida e sente-se mais próximo das forças vivas que o envolvem… Esta relação que ele mantém com todas as criaturas da terra, do céu e da água constituía um princípio real e activo. O velho índio tinha um sentimento de fraternidade para com o mundo dos pássaros e dos animais, e estes retribuíam-no com a confiança. Era tão estreita a familiaridade entre certos lakotas e os seus amigos de penas ou de peles que, tal como se fossem irmãos, falavam a mesma linguagem.
O velho lakota era sábio. Sabia que o coração do homem afastado da natureza se torna duro; que a falta de respeito para com o que cresce e vive depressa conduz também à falta de respeito para com os humanos. Por isso mantinha ele os jovens sob a mansa influência da natureza.

(Chief Luther Standing Bear, in A Fala do Índio de Teri McLuhan)

Thursday, 13 May 2004

escrevo-te
não que saiba escrever ou dizer o que quero
Resolvi passear e na tarde acontece
encontrar o lenço no bolso e dos beirais ao olhar a rua
a rua chegar à porta escrevo-te
porque me apetece escrever e ainda esta manhã te vi e
Compro o jornal e
da esplanada escrevo a canivete os nossos nomes no ar do rio
escrevo-te e as palavras duram mais
e são ditas de todas as vezes que lidas e
não que saiba escrever ou dizer o que quero Entro
e o autocarro está cheio
e ainda esta manhã te vi e
Passeei a tarde inteira e se me acho nos beirais dos bolsos
e se acontece vir das a casa que leias o que te digo
de todas as vezes
Então pedi um café demorado e não li o jornal
e dos beirais das o nome às coisas e
os pombos juntam-se aos velhos no jardim e o autocarro está cheio
E acontece vir dar a casa escrevo-te
e antes do jantar entrego-te esta carta em mãos
e não é porque saiba escrever ou dizer o que quero é
só porque sim

(João do Nascimento)