Para amansar um animal, destroem-se-lhe os membros. Para amansar uma nação, destrói-se o seu povo. Rouba-se-lhe a vontade. Demonstra-se controlo absoluto sobre o seu destino. Prova-se-lhe, em última análise, quem decide, quem vive, quem morre, quem prospera, quem não prospera. Para mostrar a nossa força, exibimos tudo o que podemos fazer e a facilidade com que o podemos fazer. A facilidade com que podemos carregar num botão e aniquilar a terra. A facilidade com que podemos declarar a guerra ou fazer a paz. Como podemos tirar um rio a uns para o darmos a outros. Como podemos reverdecer um deserto ou derrubar uma floresta e plantar outra noutro sítio. Usamos a arma do capricho para minar a fé dos povos nas coisas antigas – terra, floresta, água, ar.
Feito isso, o que mais resta? Só nós próprios. Eles voltar-se-ão para nós porque somos tudo o que eles têm. Adorar-nos-ão mesmo desprezando-nos. Confiarão em nós apesar de nos conhecerem bem. Votarão em nós mesmo que lhes tiremos o último fôlego do corpo. Beberão o que lhes dermos a beber. Respirarão o que lhes dermos a respirar. Viverão onde despejarmos os seus haveres. Têm de o fazer. Que mais podem fazer? Não existe nenhum tribunal superior para onde possam apelar. Somos mãe e pai para eles. Somos o juiz e os jurados. Somos o mundo inteiro. Somos Deus.
O poder é fortalecido não só pelo que destrói mas também pelo que cria. Não só pelo que tira mas também pelo que dá. E a Impotência reafirma-se não só pelo desamparo dos que perderam, mas também pela gratidão dos que ganharam (ou pensam que ganharam).
Esta casta de poder contemporâneo e frio oculta-se entre linhas de cláusulas aparentemente nobres e constituições aparentemente democráticas. Ambas são empunhadas pelos representantes eleitos de um povo supostamente livre. Porém, monarca nenhum, déspota nenhum, ditador de século nenhum na história da civilização jamais teve acesso a armas desse calibre.
Dia a dia, rio a rio, floresta a floresta, montanha a montanha, míssil a míssil, bomba a bomba, quase sem o sabermos, tudo está a ser destruído.
(Arundhati Roy in Pelo bem comum, acerca das mais de cinquenta milhões de pessoas desalojadas pelas Grandes Barragens construídas no Rio Narmada, na Índia)
Tuesday, 22 June 2004
Hoje inauguro uma nova secção do meu blog, o portfolio, no qual vou apresentar algumas das minhas fotos numa abordagem mais temática. Começo com um dos principais alvos da minha atenção diária e da minha paixão: as árvores. Pela sua grandeza, pela diversidade e poesia das formas e pelo respeito que lhes tenho, enquanto seres vivos. É difícil não gastar um rolo inteiro com elas! E espero que, este ano, as nossas florestas sejam poupadas e preservadas a sério!
Sunday, 20 June 2004
Wednesday, 16 June 2004
Thursday, 10 June 2004
Cores do tempo, Lisboa 2001 (Nikon F50, Kodak 200 ISO)
Esquadros
Eu ando pelo mundo prestando atenção
Em cores que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo, cores
Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção no que meu irmão ouve
E como uma segunda pele, um calo, uma casca
Uma cápsula protectora
Eu quero chegar antes
P’ra sinalizar o estar de cada coisa
Filtrar seus graus
Eu ando pelo mundo divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome dos meninos que têm fome
Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
(Quem é ela? Quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle
Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm para quê?
As crianças correm para onde
Transito entre dois lados, de um lado
Eu gosto de opostos
Expondo meu modo, me mostro
Eu canto para quem?
Eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?
Minha alegria meu cansaço?
Meu amor, cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado
(Adriana Calcanhotto)
Saturday, 5 June 2004
Monday, 31 May 2004
Estou de volta, e já de partida outra vez... Não tenho conseguido reunir os minutinhos diários para deambular com o espírito, para pesquisar ou ordenar as ideias, mas há tempos em que temos de nos abstrair dessa vontade de sermos muito nós próprios e fixar toda a atenção em qualquer projecto mais trabalhoso. Tem sido assim com este mestrado, que enfrenta agora a época mais crítica, mas espero ter tempo depois para gozar da sensação de ter tudo acabado e bem feito, e aí sim dar largas à imaginação! Volto logo...
Subscribe to:
Posts (Atom)