Thursday, 30 September 2004

Travelling journal



"...junto bocados de alma e pinto, escrevo, colo fotografias, etc...
Pensei em partilhar isso com algumas pessoas, mas também gostaria de ter bocados das suas emoções presas no meu caderno, para isso estou começando este Travelling Journal Project"
(Leda Cruz)


.: para participar :.

Lomo Smena symbol, Kodak 100 ISO / Coimbra 2004

A minha primeira experiência no mundo da lomografia! Don't think, just shoot... um conceito totalmente novo para quem está habituado a procurar e obter determinados resultados consoante as ideias que se têm à partida acerca do mundo à nossa frente. Mas confesso que nunca fui muito de "esperar pelo momento certo, pacientemente", de montar o material e saber exactamente o que quero daquela foto. Sempre fui mais do género de aproveitar o momento ao máximo e adaptar-me às condições que ele me oferece. Por isso este novo conceito de disparar ao acaso, sem regras pré-estabelecidas, é muitíssimo tentador... já não consigo parar!

Sunday, 19 September 2004


HP Photosmart 620 / Leiria, 2003


Acordar na rua do mundo
madrugada, passos soltos de gente que saiu
com destino certo e sem destino aos tombos.
no meu quarto cai o som depois
a luz. ninguém sabe o que vai
por esse mundo. que dia é hoje?
soa o sino sólido as horas, os pombos
alisam as penas, no meu quarto cai o pó.

um cano rebentou junto ao passeio.
um pombo morto foi na enxurrada
junto com as folhas dum jornal já lido.
impera o declive
um carro foi-se abaixo
portas duplas fecham
no ovo do sono a nossa gema.

sirenes e buzinas. ainda ninguém via satélite
sabe ao certo o que aconteceu. estragou-se o alarme
da joalharia. os lençóis na corda
abanam os prédios, pombos debicam
o azul dos azulejos. assoma à janela

quem acordou. o alarme não pára o sangue
desavém-se. não veio via satélite a querida imagem o vídeo
não gravou
e duma varanda um pingo cai
de um vaso salpicando o fato do bancário.

(Luiza Neto Jorge)

Monday, 13 September 2004

Morreu o meu Mustapha. Era um periquito amarelo e verde, muito bem disposto e uma excelente companhia. Todas as manhãs eram mais alegres quando ele cantava até à exaustão (a nossa). Gostava de pensar que ele não sofreu, mas acho que sofreu bastante pois viu-se privado das suas capacidades durante algum tempo, demasiado tempo... e sentia uma revolta grande, uma teimosia pela vida como nunca vi em animal nenhum. Infelizmente só pude partilhar com ele da tristeza por aquilo que lhe estava a acontecer, e tentar tornar-lhe os dias menos negros. Agora espero que exista um lugar melhor para ele, onde ele possa cantar todas as manhãs de sol e ser feliz, à simples maneira das aves...

Wednesday, 8 September 2004


Coimbra, 2004 / HP Photosmart 620

Coimbra... o regresso: depois de um mês de Agosto completamente estranho, tal a serenidade que se abateu soubre as ruas de Coimbra, o burburinho e a vaga de gente recomeça a sentir-se a pouco e pouco. Primeiro o final do mês de Agosto, o regresso das férias com as marcas evidentes da estadia na praia, depois o início de Setembro, o regresso ao trabalho e às filas, as obrigações e os horários... o stress! Coimbra morre no Verão, e renasce no Outono, em todo o seu esplendor. Vive do regresso, eterno. Mesmo para quem fica, e assiste a este fenómeno, o regresso existe, faz-se sentir. Coimbra é mesmo a cidade dos estudantes. E aqui sinto-me eternamente um deles...

Saturday, 14 August 2004


A música , HP Photosmart 620, Agosto 2004

"Um segredo profundo a atravessar-nos. Uma emoção a continuar para onde não se imagina. A vida condensada e repetida. Um momento ao qual não tínhamos a certeza de poder sobreviver. Recordações e a explicação simples da vida. O mistério mais impossível e a revelação mais clara. Cores: branco, azul, verde, branco, luz, negro, azul, céu, branco. Nenhuma cor. Água. Silêncio a falar a língua da claridade numa voz de manhãs. Um som ou alguma coisa verdadeira. Tudo isto e nada disto era a música."

(José Luis Peixoto, in Uma casa na escuridão)

Friday, 16 July 2004

 
Nikon F50, Kodak 200 ISO, Praia da Amoreira 2002

Nada

Antes não havia nada. Nada senão oliveiras e céu, Alentejo pobre, terra de alguns. Hoje, apesar do progresso, o nada é maior. Continuo a voltar lá para sonhar e me desiludir. Para endurecer e fortalecer o cinismo necessário à sobrevivência. Do nada aproveito tudo.

(Paulo Nozolino)


Deparo-me muitas vezes com este contacto com o "nada". No local onde trabalho e recolho os dados para a minha tese de mestrado, é assim... um nada absoluto, penetrante e por vezes gritante, outras vezes confortante. E se no meio dele me esqueço do tempo e abarco esse deserto com todo o meu ser, longe dele encaro-o com medo e relutância. E a nossa noção de tempo é diferente da daquelas pessoas que do vazio fizeram a sua vida. Porque no ruído do dia-a-dia a ideia de vazio toma outras proporções e surge quase como uma ferida.