Monday, 3 January 2005

... e dizes que há para tudo um lado invisível, secreto como o interior das conchas bivalves, uma oculta e primordial razão, uma ordem na desordem, um rio onde estiver o mar. Que nada é decifrável a esta luz e a vida é uma torre sem ameias virada há séculos, ou desde sempre, para o mesmo precipício. Que todos os indícios, e os oráculos, e os ventos, sopram nessa direcção. Como perdizes acossadas. Como laranjas podres atiradas de uma janela alta para um cesto sem fundo e vazio.

(Albano Martins, in Rodomel Rododendro)



2004 (foto-retrospectiva)


Quero acreditar que para tudo há uma razão muito forte, bela e inquestionável. Quero mesmo muito poder acreditar nessa primordial razão. Mas não posso deixar de, por um qualquer instinto de sobrevivência inato, lutar pela conquista desse lugar maravilhoso e todos os dias, todos os anos, tentar melhorar o meu desempenho como ser humano. Passou-se mais um ano, este bastante estranho e difícil. Apesar de tudo cá estamos, sobreviventes de uma inconstante batalha pela vida e pela paz. Por tudo isso, prefiro recordar o que de bom aconteceu, as pequenas e grandes conquistas, e aprender com os erros. Espero que os ventos mudem, sejam mais favoráveis e justos, que sejamos mais justos! Quero ser forte, encarar o amanhã sem medo, viver um dia depois do outro, sem nunca esquecer o que me trouxe até aqui desde o início...
Feliz Ano Novo!

Tuesday, 28 December 2004


Lomo Smena Symbol, Agfa 200 ISO - Coimbra 2004


Procura-se um amigo

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.
Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.
Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

(Vinicius de Moraes)

Thursday, 23 December 2004



Carta para o Tempo do Vento


Esta carta é para o vento
O vento que nos consome
Este o retrato que tento
O espelho azul do meu nome.

Para o tempo repartido
Na confissão dos fracassos
Na alegria de ter braços
Abertos para um amigo.

Esta carta é do deserto
Foi ditada pelo vento
O homem está mais perto
De ser por fora e por dentro.

Esta carta é de distância
Tão bela quisera ser
Homem adulto de infância
Não voltarás a sofrer.

(José Carlos González)


Feliz Natal! Que o novo ano vos traga muitos sorrisos!

Thursday, 9 December 2004



Mundoflo é um lugar onde nada se repete. Onde são criadas peças com amor, e onde o tempo faz crescer um sonho de há muito, dando-lhe forma e contornos coloridos... fica aqui o convite para a sua descoberta!

www.mundoflo.com

Wednesday, 1 December 2004


Nikon F50, Ilford 400 ISO - Leiria 2004


sida

aqueles que têm nome e nos telefonam
um dia emagrecem – partem
deixam-nos dobrados ao abandono
no interior duma dor inútil muda
e voraz

arquivamos o amor no abismo do tempo
e para lá da pele negra do desgosto
pressentimos vivo
o passageiro ardente das areias – o viajante
que irradia um cheiro a violetas nocturnas

acendemos então uma labareda nos dedos
acordamos trémulos confusos – a mão queimada
junto ao coração

e mais nada se move na centrifugação
dos segundos – tudo nos falta
nem a vida nem o que dela resta nos consola
a ausência fulgura na aurora das manhãs
e com o rosto ainda sujo de sono ouvimos
o rumor do corpo a encher-se de mágoa

assim guardamos as nuvens breves os gestos
os invernos o repouso a sonolência
o vento
arrastando para longe as imagens difusas
daqueles que amámos e não voltaram
a telefonar

(Al Berto in Horto de Incêndio)



1 de Dezembro: Dia Mundial da Luta contra a SIDA... Hoje poderia ser um dia como outro qualquer. Mas é hoje que a sociedade resolve baixar as barreiras da negação e quebrar os tabus, falar um pouco. Infelizmente, durante demasiado pouco tempo, apenas durante 1 dia. A Sida ainda não é considerado um problema global, que diz respeito a todos… mas é! Não apenas hoje, mas todos os dias!

Tuesday, 23 November 2004


Lomo Smena Symbol, Agfa 200 ISO - Coimbra 2004


Adoro a cidade em Novembro... o ar frio, o fumo das castanhas assadas nas ruas, a luz, a cultura... é o mês dos velhinhos Encontros de Fotografia em Coimbra e dos encontros de jazz (que infelizmente não têm acontecido com a devida regularidade, mas que marcaram para sempre a minha vida nesta cidade e o meu amor pela arte). É o mês que antecede o Natal e em que ainda dá gozo passear pelas ruas à procura de ideias e prendas especiais. É todo o ambiente que se vive, a adaptação do corpo e da natureza ao Inverno... as folhas de todas as cores que balançam nas árvores e eventualmente acabam por cair, tornando os jardins autênticas telas de quadros impressionistas. A cidade fervilha de vida. Os pombos e as pessoas, e o sol, que teima em permanecer nem que por apenas mais alguns dias...

Thursday, 18 November 2004



Ontem vi um filme que, não sendo novo, ainda não tinha tido oportunidade de ver: Monster, de Patty Jenkins, protagonizado por Charlize Theron e Christina Ricci. É uma história verídica e inquietante , que retrata uma realidade infelizmente mais comum do que se pode supor. Mas mais do que a violência que envolve a vida de uma prostituta cuja vida parece condenada ao sofrimento, é a ânsia desta personagem em agradar e ser amada e a sua entrega total a este amor dependente e cego. Um óscar muito bem merecido para a excelente interpretação e incrível transformação de Charlize Theron, que me surpreendeu bastante.

---------------------------------------------------------------------------------


"Inner issues for some people..." é o mote para o novo site de Jass Carnival. Totalmente renovado, promete uma maior interactividade. Recomendo principalmente as músicas, disponíveis para download.
http://jasscarnival.tripod.com/