Monday, 24 January 2005


Pintura em acrílico e colagens, para mundoflo.com, 2005


Eu vi você atravessar a rua
molhando a sombra na água
eu vi você parar a lagoa parada
você atravessou a rua
na direção oposta
pisando nas poças, pisando na lua
e a poesia ali me deu as costas

e pra quê palavras
se eu não sei usá-las?
cadê palavra que traga você
daquela calçada?

você atravessou a rua
na direção contrária
e a poesia que meu olho molhava ali
quem sabe não me caiba
quem sabe seja sua
ali, atravessando a chuva
e toda a lagoa parada
você na direção errada
e eu na sua

e pra quê palavras
se eu não sei usá-las?
cadê palavra que traga você
daquela calçada?

(Adriana Calcanhotto in Canção sem seu nome)

Monday, 17 January 2005


Nikon F50 / Ilford 400 ISO - Praia da Rocha, 2004


Que fique só da minha vida
um monumento de palavras
Mas não de prata nem de cinza
Antes de lava antes de nada
Daquele nada que se aviva
quando se arrisca uma viagem
por entre os pântanos da ira
além do sol das barricadas
Ou quando um poço que cintila
parece o tecto de uma sala
Ou quando importa que se extinga
dentro de nós a inexacta
irradiação que vem das criptas
em que o azul nos sobressalta
em que à penumbra se diria
que se acrescenta o som das harpas
Ou quando a terra não expira
senão segredos feitos de água
Ou quando a morte nos avisa
ou quando a vida nos agarra

(David Mourão-Ferreira, Testamento)

Sunday, 9 January 2005



Monday, 3 January 2005

... e dizes que há para tudo um lado invisível, secreto como o interior das conchas bivalves, uma oculta e primordial razão, uma ordem na desordem, um rio onde estiver o mar. Que nada é decifrável a esta luz e a vida é uma torre sem ameias virada há séculos, ou desde sempre, para o mesmo precipício. Que todos os indícios, e os oráculos, e os ventos, sopram nessa direcção. Como perdizes acossadas. Como laranjas podres atiradas de uma janela alta para um cesto sem fundo e vazio.

(Albano Martins, in Rodomel Rododendro)



2004 (foto-retrospectiva)


Quero acreditar que para tudo há uma razão muito forte, bela e inquestionável. Quero mesmo muito poder acreditar nessa primordial razão. Mas não posso deixar de, por um qualquer instinto de sobrevivência inato, lutar pela conquista desse lugar maravilhoso e todos os dias, todos os anos, tentar melhorar o meu desempenho como ser humano. Passou-se mais um ano, este bastante estranho e difícil. Apesar de tudo cá estamos, sobreviventes de uma inconstante batalha pela vida e pela paz. Por tudo isso, prefiro recordar o que de bom aconteceu, as pequenas e grandes conquistas, e aprender com os erros. Espero que os ventos mudem, sejam mais favoráveis e justos, que sejamos mais justos! Quero ser forte, encarar o amanhã sem medo, viver um dia depois do outro, sem nunca esquecer o que me trouxe até aqui desde o início...
Feliz Ano Novo!

Tuesday, 28 December 2004


Lomo Smena Symbol, Agfa 200 ISO - Coimbra 2004


Procura-se um amigo

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.
Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.
Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

(Vinicius de Moraes)

Thursday, 23 December 2004



Carta para o Tempo do Vento


Esta carta é para o vento
O vento que nos consome
Este o retrato que tento
O espelho azul do meu nome.

Para o tempo repartido
Na confissão dos fracassos
Na alegria de ter braços
Abertos para um amigo.

Esta carta é do deserto
Foi ditada pelo vento
O homem está mais perto
De ser por fora e por dentro.

Esta carta é de distância
Tão bela quisera ser
Homem adulto de infância
Não voltarás a sofrer.

(José Carlos González)


Feliz Natal! Que o novo ano vos traga muitos sorrisos!

Thursday, 9 December 2004



Mundoflo é um lugar onde nada se repete. Onde são criadas peças com amor, e onde o tempo faz crescer um sonho de há muito, dando-lhe forma e contornos coloridos... fica aqui o convite para a sua descoberta!

www.mundoflo.com