Saturday, 26 February 2005



Ao fazer este pequeno presente para a V., uma menina de 3 anos, tive de recuar no tempo e reviver um pouco a minha infância. O infantário com as suas pequenas cadeiras em roda, as tintas e a casa de bonecas, as canções que levava todos os dias para casa bem decoradas, os trabalhos que fazíamos para os pais, para o Natal, para a Páscoa, as férias em casa da minha avó e as manhãs de Sábado (bem madrugadas) a ver desenhos animados. A inocência, a despreocupação, os sonhos, a paz, um dia de cada vez e depois do outro. As cores, o cheiro a sol nos dias de sol. As canetas de feltro e os lápis de cera, a alegria ao pegar nas tintas de água, que usávamos para imprimir as nossas próprias mãos no papel. A hora depois da sesta, ansiosamente esperada, sinal de um dia quase a acabar e o regresso a casa. Tive uma infância bonita, feliz. Tenho memórias cheias de amor e aconchego. Guardo-as com carinho...


Nikon F50 / Agfa 200 ISO - 2004

Thursday, 17 February 2005


Casa negra, Jeanloup Sieff, 1964


Trabalho com a frágil e amarga
matéria do ar
e sei uma canção para enganar a morte -
assim errando vou a caminho do mar.

(Eugénio de Andrade, in O peso da sombra)

Tuesday, 8 February 2005



Acabei o meu "retalho" para o Tsunami Quilt Project 2005, aqui está uma imagem. É de lã, é fofinho e quentinho, para transmitir conforto e calor às pessoas que, neste momento, não têm nada, nem esse bem imenso de que nem sempre nos apercebemos. Amanhã seguirá no correio.



Preparo-me agora para iniciar o meu contributo no Travelling Journal #03, começado pela Cristina Oliveira, com um trabalho fantástico. Já tenho algumas ideias, falta pô-las em prática. Já está em curso uma lista para o Journal #4, participem!

Sinto-me a fervilhar, de ideias, imagens, projectos. E tenho uma tese de mestrado para escrever, o tempo a passar e o trabalho a ficar para trás... Tenho de conseguir uma forma de me desdobrar (ainda mais), sem perder o rumo. O dia podia ter mais horas!
Em breve quero ainda dar uma nova imagem ao tempoeodeserto, como um novo corte de cabelo, nada de mais, apenas uma lufada de ar fresco :)


Wednesday, 2 February 2005


deve haver um lugar onde um braço e outro braço sejam mais que dois braços
um ardor de folhas mordidas pela chuva a manhã perto nem que seja de rastos (...)


com o tempo aproximar-se-ão os rios e os montes, com o tempo
acabará por te vir comer à mão e fazer ninho na tua cama
o silêncio.(...)

(Eugénio de Andrade, in O peso da sombra)

Mãos que tocam o escuro, série de fotos com HP Photosmart 620 - Coimbra/ 2005

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Projecto Tsunami Quilt 2005

Descobri este projecto por acaso e pareceu-me uma excelente ideia para quem gostaria de fazer alguma coisa para ajudar as vítimas da catástrofe, através de um pequeno gesto, usando a imaçinação. A ideia é cada pessoa criar um pequeno quadrado em material têxtil (tecido, lã, transfer, tinta, etc.) que irá, mais tarde, fazer parte de uma grande "manta de retalhos" que será leiloada em benefício das vítimas. A entrega deve ser feita até 15 de Fevereiro e os pormenores estão no site official.

Monday, 24 January 2005


Pintura em acrílico e colagens, para mundoflo.com, 2005


Eu vi você atravessar a rua
molhando a sombra na água
eu vi você parar a lagoa parada
você atravessou a rua
na direção oposta
pisando nas poças, pisando na lua
e a poesia ali me deu as costas

e pra quê palavras
se eu não sei usá-las?
cadê palavra que traga você
daquela calçada?

você atravessou a rua
na direção contrária
e a poesia que meu olho molhava ali
quem sabe não me caiba
quem sabe seja sua
ali, atravessando a chuva
e toda a lagoa parada
você na direção errada
e eu na sua

e pra quê palavras
se eu não sei usá-las?
cadê palavra que traga você
daquela calçada?

(Adriana Calcanhotto in Canção sem seu nome)

Monday, 17 January 2005


Nikon F50 / Ilford 400 ISO - Praia da Rocha, 2004


Que fique só da minha vida
um monumento de palavras
Mas não de prata nem de cinza
Antes de lava antes de nada
Daquele nada que se aviva
quando se arrisca uma viagem
por entre os pântanos da ira
além do sol das barricadas
Ou quando um poço que cintila
parece o tecto de uma sala
Ou quando importa que se extinga
dentro de nós a inexacta
irradiação que vem das criptas
em que o azul nos sobressalta
em que à penumbra se diria
que se acrescenta o som das harpas
Ou quando a terra não expira
senão segredos feitos de água
Ou quando a morte nos avisa
ou quando a vida nos agarra

(David Mourão-Ferreira, Testamento)

Sunday, 9 January 2005