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Thursday, 18 March 2010

Poemagem #6

O valor do vento

Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

(Ruy Belo, in Todos os poemas, Círculo de leitores)



Photo by Josef Koudelka


*Sobre o projecto Poemagem*

Thursday, 11 March 2010

Poemagem #5


Photo by Polly Wreford


depois do frio ainda

quatro.

ela abre a porta do quarto, corre
até à janela e diz-me:
«olha como neva lá fora – vês?»

(Vasco Gato, in Um Mover de Mão, Assírio & Alvim, 2000)


*Sobre o projecto Poemagem*

Thursday, 4 March 2010

Poemagem #4

A noite viúva

Uma pequena angústia sentida nos joelhos
Como o bater do próprio coração
E é a noite que chega
Não a noite-diamante
Mas a noite-viúva a noite
Sete vezes mais impura do que eu
Em passo obsceno em obscena força
Minúscula perversa venenosa

Escrevo o teu nome
Noite de amor que de longe me defendes
Escrevo o teu nome contra a noite obscena
Que a meu lado espera seduzir-me
Levar-me consigo
À porca solidão onde trabalho
À insónia sem margens ao vinho solitário
Duma pequena angústia
Escrevo todos os teus nomes
Puxo-os para mim tapo-me com eles
Na noite da surpresa
Noite feroz da surpresa
Noite do amor atacado de perto e conseguido
Alto e convulsivo
Noite dos amantes deslumbrados
Iluminados pelo demónio mais puro
Noite como uma punhalada ritual no invisível
Noite da vítima-triunfante

Escrevo o teu nome a meu favor e contra
Esta noite este murmúrio esta invenção atroz
A que chamam o dia-a-dia
Estas quatro minúsculas patas
Venenosas da angústia
Escrevo o teu nome cruel
Puro e definitivo.

(Alexandre O'Neill, in Poesias Completas, Assírio & Alvim)



Photo by Elisa Lazo de Valdez


*Sobre o projecto Poemagem*

Thursday, 25 February 2010

Poemagem #3


Photo by Elena Ciobanu


O guarda-rios

É tão difícil guardar um rio
quando ele corre
dentro de nós.

(Jorge de Sousa Braga, in "O Poeta Nu" [poesia reunida], Assírio & Alvim)



*Sobre o projecto Poemagem*

Thursday, 18 February 2010

Poemagem #2

nossa senhora das andorinhas cansadas

no beiral do café, enquanto confessámos
ideias sórdidas sobre as pessoas bonitas,
pousavam as primeiras folhas de outono.
pensámos que as pessoas bonitas deviam
conferir trocos pequenos em lojas de
bairro e que, por uma moeda maior, nos
vendessem corpo e alma sem grande resistência.
pensámos que as folhas de outono, entristecendo
o café, deviam subir com o vento e
encalhar nas nuvens. em alto mar, se as nuvens
se cansassem, poderiam ser largadas
longe dos nossos corações predadores mas
tão aflitos com o amor. no inverno, pensámos,
não sermos amados é como estar na fila para
morrer. olhámos em redor e nada

(valter hugo mãe, in pornografia erudita, cosmorama edições)




Photo by Simon Wong


*Sobre o projecto Poemagem*

Thursday, 11 February 2010

Poemagem #1

Bem-vindos a um novo projecto! Uma parceria com a minha amiga SombrArredia, com quem partilho o gosto pela poesia (entre outras coisas). Sempre gostei de misturar poemas com fotografias, ... poemar (expressão da S.) imagens ou imaginar poemas... E assim surgiu esta "Oficina": numa semana eu envio uma foto à S. para ela "poemar", na outra ela envia-me um poema para eu "imaginar". E vamos alternando e deixando aqui e no espaço dela o resultado! Espero que gostem tanto como nós!





Photo by george song


Onde não pode a mão

Como se uma estrela hidráulica arrebatada das poças.
Tu sim deslumbras, Por coroação:
por regiões activas de levantamento:
por azouge da cabeça,
Brilhas pela testa acima,
Ceptro : potência - ah sempre que o chão crepita
dos charcos de ouro,
E no corpo trancando a veias
e nervos : o sangue que se afunda e faz tremertudo, Tocascom um arrepio de unha a unha
o mundo, Pontada
que te abre e aumenta
ou
- onde se um troço dessa massa
intestina: e como respirada: às queimaduras
primitivas - Boca:sexo: vivezadas tripas: uma glândula que te move
ao centro, Amadureces como um ovo, Na traça carnal: todocom um golpe com muita força para dentro
Cortaram pranchas palpitando de água:
fincaram-nas,Montaram esta casa: suas membranastrémulas: a potência
do chão, Este astro opulento entreaberto
pelas labaredas,
Com uma chaga na camisa: grita,
Há alguém que grita com uma imagem
em combustão saída
do corpo: comoa parte de fora de um planeta,
Que se não toque nunca nas bolsas onde
pulsa a água,
Que se não toque nas torneiras
onde se ata o gás:nos pontos
de tensão por onde o gás rebenta,
A morte está tapada em qualquer parte
dos dedos
enredados em qualquer parte
da matéria
tremenda sob os dedos, A matéria que mata
por fogo ou afogamento,
E na garganta como o ar faz o som
a morte faz um grito:
um estrangulamento, O gás brilha muito:
a água brilha:
no interior de tudo brilha tanto
o medo
como uma força, Respirando: ahjubilação da cara: o sangue dentro
na sua malha sensívelcanta canta, O lirismo é louco: aterra,
O tronco:
a dor de um músculo
arroteado
fremindo,Este uso
luminoso imposto ao mundo
das paisagens, Assim sobre o pescoço
dispõe-se disto - carne
martelada por fluxos e refluxos entre
as formas e o assombro,
A comida por exemplo há que tragá-la,
Há que escoar a água
pelos ralos
da terra: ou entre os braços côncavacomo uma estrela há que
sustê-la, Há que sorver veneno gás: umdelírio tóxico,Há
que ter a transparência da morte,
É preciso ser dental: ter entranhas: ser igualao furor das coisas:
da metáfora
das coisas, Um pouco de acrescento
manual ao raio que destroça
a mão, Ou engolir no tubo assoprado
tanto
do ar do fundo, Há que ser
ferramenta de música.

(Herberto Helder, in Ou o poema contínuo, Assírio & Alvim, Set. 2004)