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Friday, 21 March 2014

Poesia, árvores e Primavera



Conheci muitas árvores na minha vida.
Todas eram dignas, e todas tinham
uma espécie de sombra em redor,
que era onde os pássaros
iam à noite rezar.


(Carlos Pires, in A fuga das cidades)



Feliz Dia da Poesia, feliz Dia da Árvore, feliz Primavera! O dia de hoje, para mim, simboliza o acordar de um longo sono de Inverno, para celebrar a vida, a natureza e toda a sua plenitude.



:::a foto na minha parede é da Jen Causey, a flor foi um miminho da Mercabio, a quem compramos os legumes e frutas biológicos

Saturday, 8 March 2014

Dia da Mulher



"Às vezes era assim: adormecias com um pássaro nos ombros e na garganta. Eras, então, a árvore e o ninho, o canto do pássaro. E eras também, por isso, uma dessas aves a que chamam canoras e trazias acordada no ouvido. E eras, também por isso, um búzio, um búzio com asas.(...)"

(Albano Martins, in O mesmo nome)


Feliz Dia da Mulher!

Thursday, 4 April 2013

Em abril, poemas mil!





"Trazíamos ainda nos ouvidos o canto acre e fausto das cigarras. Vinham com ele, amarrados, os bois, as noras, os carvalhos, e a voz rouca do cuco e da poupa, o aroma poroso dos rododendros. Porque é deles que falas onde quer que te dispas, te desnudes, desprevenidos e inteiro. Da moldura partida e do retrato caído no degrau mais fundo das escadas. Sim, por mais que digas, falas sempre das abelhas, do mel adolescente escorrendo dos favos loucos da alegria. Da alegria perdida, reencontrada, perdida entre os escombros e as abjecções do real, mais falso e verdadeiro que todas as verdades aprendidas, que todos os dogmas e doutrinas acumuladas nos compêndios por onde te ensinaram a vida.
(...)
E olhas em redor. Este é o círculo perfeito onde o olhar dorido de demora e descansa. A planície contornada por uma vegetação rasteira e incólume. Distante mora o fósforo dos incêndios. Em sua cabeça exangue ardem ameaças e terrores que adivinhas somente. Sê vigilante e subtil. Não durmas. Ou dorme sobre o lado direito, sem pisar o coração, que vela de olhos fechados, mas acesos. Como um clarão, uma medalha de ouro iluminada, um punho inflamado erguido sem revolta. Ou dorme, sim, como dormem os aloendros, vertical e secreto, em teus rizomas de aço e de ternura.
(...)
E olhas distraidamente o relógio. Distraidamente o retiras da algibeira. Do pulso não, que o envolveste em seda e algodão, com receio das combustões, da faísca luminosa, incendiária, causada pelo atrito do tempo. E o mudas de lugar, e estás preso à corrente - a do relógio, a do círculo movente que à tua volta rodopia, do rodomel, dos rododendros, que te afloram aos lábios para derretê-los na doçura com que bebes os minutos e o vento.
(...)
Percorrias, sem cansaço, os átrios suportados por colunas de arbustos breves e silêncios, até ao limite das figueiras bravas, no limiar dos campos onde o estrume apodrecia, fecundando a árvore das estrelas. Ali onde se erguia de repente uma surda alcateia de morcegos açulados e uivantes, um cardume de sombras cautelosas e retrácteis, na orgia oceânica do espaço esventrado.
(...)
Tempo das roseiras bravas e dos figos lampos colhidos à hora de inverno, quando os dias eram só uma ligeira impressão digital deixada no horizonte das casas e dos rios."


(Albano Martins, in Rodomel Rododendro)

 ***


A Scarlet red desafiou, eu respondi. Porque não transformar a água em poesia? Escolhi este excerto de um dos meus poemas favoritos (que é demasiado longo para transcrever na íntegra); gosto da poesia assim corrida, em formato de prosa; e o livro Frágeis são as palavras é ainda um dos que mais gosto e a que recorro muitas vezes.


(Photo by Jonathan Levitt)

Thursday, 21 March 2013

Primavera




Algumas proposições com pássaros e árvores
que o poeta remata com uma referência ao coração
Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração

(Ruy Belo)


::: ainda que muito acanhada, a Primavera vai chegando de mansinho... e precisamos tanto dela!
::: salada de quinoa e frutos, inspirada na da M.
::: bolo de banana, receita daqui
::: uma nova colecção a nascer...
::: uma subtil mas importante alteração no blog - na barra superior todos os links para o meu trabalho
::: feliz dia da Poesia, da Árvore e da Primavera!


P.S: Muito obrigada a todos os que comentaram ou enviaram emails acerca do post anterior ♥

Thursday, 17 January 2013

esquece-te do mundo...





























É mais fácil partir quando o silêncio
transpõe a tua voz
Mais simples celebrar a tão efémera
certeza de estares vivo

A música do ar esvai-se nas sombras
tu sabes que é assim,
que os dias correm céleres, não tentes
perseguir o seu rasto - repara
como em abril as aves são felizes

Sê como elas: não perguntes nada
deixa que o sol responda à flor
da tarde
e esquece-te do mundo.

(Fernando Pinto do Amaral)

Wednesday, 21 March 2012

Today




A magnólia floriu este inverno
e eu não sei como dizer-te
que me comove ainda que dê flor.

(José Rui Teixeira, in Oráculo)


Hoje é um dia bonito por princípio! Celebra-se o dia da Poesia, da Árvore e da Floresta! A Primavera chegou em força. Já é meio da semana. E fui entrevistada aqui. Desejo-vos um dia feliz!

Thursday, 29 December 2011

Poemagem #25

Atrás dos meus medos se uniu
um fulgor de fuga e liberdade





Texto: SombrArredia | Fotografia: Adriana O.
*Sobre o projecto Poemagem

Thursday, 15 December 2011

Poemagem #24




novamente a mesma luz que seduz e cega
indomesticável
perene
e voluntariosa



Texto: SombrArredia | Fotografia: Adriana O.
*Sobre o projecto Poemagem

Thursday, 1 December 2011

Poemagem #23

Há não sei quê de díspar em ti que me afecta os sentidos:
será o ler-te?
será o ouvir-te?
será o tocar-te?


será o provar-te?



Texto: SombrArredia | Fotografia: Adriana O.
*Sobre o projecto Poemagem

Thursday, 17 November 2011

Poemagem #22




O silêncio pendura-se nas últimas palavras;
naquelas que só soubeste dizer enquanto esperavas
que o descanso te arrefece,
nessa tua forma de estar não estando.



Texto: SombrArredia | Fotografia: Adriana O.
*Sobre o projecto Poemagem

Thursday, 3 November 2011

Poemagem #21

...e de repente todas as mãos se fecharam e todos os gritos cessaram na perfeição de um poema.





Texto: SombrArredia | Fotografia: Adriana O.
*Sobre o projecto Poemagem

Thursday, 20 October 2011

Poemagem #20



Acordar.
Entrar.
Contemplar.
Sentir.
Sair.
Respirar.
Sonhar.
Sorrir.
Partir.


Texto: SombrArredia | Fotografia: Adriana O.
*Sobre o projecto Poemagem

Thursday, 6 October 2011

Poemagem #19

Pensar que o dia se fez hora nas tuas mãos onde acabaram por morrer todos os meus sons e todos os meus silêncios.




Texto: SombrArredia | Fotografia: Adriana O.
*Sobre o projecto Poemagem

Thursday, 22 September 2011

Poemagem #18



E como se de ti partissem todas as cores com que sorris e todas as tuas mágoas sem tempo..



Texto: SombrArredia | Fotografia: Adriana O.
*Sobre o projecto Poemagem

Thursday, 8 September 2011

Poemagem #17

Tenho.um.restolhar.de.asas.por.cumprir…
e.um.pedaço.de.papel.para.vencer.se.a.mão.não.sair.dormente.
do.desencanto.





Texto: SombrArredia | Fotografia: Adriana O.
*Sobre o projecto Poemagem

Thursday, 25 August 2011

Poemagem #16



abre-me o dia

e sujeita-me à insensatez de não prescindir do que não é relevante.



Texto: SombrArredia | Fotografia: Adriana O.
*Sobre o projecto Poemagem

Thursday, 11 August 2011

Poemagem #15

Encontro-me em todas de ti,as ruas,
remotas ilhas de presença ambígua;
camélias pendentes,
escombros
habitados por palavras
agri-doces ou acres, ou,
sonolentas,ou
sonhadoras...
o aperto de ambos,o deslizar das mãos.
.
.
o aperto,o corpo,o sexo,
o
..




Texto: SombrArredia | Fotografia: Adriana O.
*Sobre o projecto Poemagem

Thursday, 28 July 2011

Poemagem #14



e se me deixares ir até ao fundo da linha?
Desembarcava no único traço que te conheço e

ensinavas-me de olhos fechados a cor do orvalho que vês pela manhã.



Texto: SombrArredia | Fotografia: Adriana O.
*Sobre o projecto Poemagem

Thursday, 14 July 2011

Poemagem #13

abrir as palavras
detê-las
constantemente no encruzilhar dos teus dedos,
ou, do sinal do provir,
do relançar
para além...
há sempre a luz do "não" dito,
ou somente o desejo
de omitir -
com os lábios tudo se diz em luz
aberta,
só os fechamos quando o olhar nos trai





Texto: SombrArredia | Fotografia: Adriana O.
*Sobre o projecto Poemagem

Thursday, 30 June 2011

Poemagem #12



Não me perguntes em que horizontes ando nem em que espaços me escondo. Não me perguntes em que noite lunar ou em que manhã solar me refugio. Aquilo que sou está demasiado esfumado para me acreditar.


Texto: SombrArredia | Fotografia: Adriana O.
*Sobre o projecto Poemagem