Thursday, 4 April 2013

Em abril, poemas mil!





"Trazíamos ainda nos ouvidos o canto acre e fausto das cigarras. Vinham com ele, amarrados, os bois, as noras, os carvalhos, e a voz rouca do cuco e da poupa, o aroma poroso dos rododendros. Porque é deles que falas onde quer que te dispas, te desnudes, desprevenidos e inteiro. Da moldura partida e do retrato caído no degrau mais fundo das escadas. Sim, por mais que digas, falas sempre das abelhas, do mel adolescente escorrendo dos favos loucos da alegria. Da alegria perdida, reencontrada, perdida entre os escombros e as abjecções do real, mais falso e verdadeiro que todas as verdades aprendidas, que todos os dogmas e doutrinas acumuladas nos compêndios por onde te ensinaram a vida.
(...)
E olhas em redor. Este é o círculo perfeito onde o olhar dorido de demora e descansa. A planície contornada por uma vegetação rasteira e incólume. Distante mora o fósforo dos incêndios. Em sua cabeça exangue ardem ameaças e terrores que adivinhas somente. Sê vigilante e subtil. Não durmas. Ou dorme sobre o lado direito, sem pisar o coração, que vela de olhos fechados, mas acesos. Como um clarão, uma medalha de ouro iluminada, um punho inflamado erguido sem revolta. Ou dorme, sim, como dormem os aloendros, vertical e secreto, em teus rizomas de aço e de ternura.
(...)
E olhas distraidamente o relógio. Distraidamente o retiras da algibeira. Do pulso não, que o envolveste em seda e algodão, com receio das combustões, da faísca luminosa, incendiária, causada pelo atrito do tempo. E o mudas de lugar, e estás preso à corrente - a do relógio, a do círculo movente que à tua volta rodopia, do rodomel, dos rododendros, que te afloram aos lábios para derretê-los na doçura com que bebes os minutos e o vento.
(...)
Percorrias, sem cansaço, os átrios suportados por colunas de arbustos breves e silêncios, até ao limite das figueiras bravas, no limiar dos campos onde o estrume apodrecia, fecundando a árvore das estrelas. Ali onde se erguia de repente uma surda alcateia de morcegos açulados e uivantes, um cardume de sombras cautelosas e retrácteis, na orgia oceânica do espaço esventrado.
(...)
Tempo das roseiras bravas e dos figos lampos colhidos à hora de inverno, quando os dias eram só uma ligeira impressão digital deixada no horizonte das casas e dos rios."


(Albano Martins, in Rodomel Rododendro)

 ***


A Scarlet red desafiou, eu respondi. Porque não transformar a água em poesia? Escolhi este excerto de um dos meus poemas favoritos (que é demasiado longo para transcrever na íntegra); gosto da poesia assim corrida, em formato de prosa; e o livro Frágeis são as palavras é ainda um dos que mais gosto e a que recorro muitas vezes.


(Photo by Jonathan Levitt)

2 comments:

Scarlet Red said...

Obrigada por teres aceite o desafio :)

sombra_arredia said...

uau!```

o texto é ... !

Fiquei c/ vontade de ter esse livro
:)
...E acho q foste tu q me deste a conhecer este autor!